O FENÔMENO LA NIÑA VOLTA A GANHAR FORÇA E DEVERÁ CONTINUAR ATIVO DURANTE A SAFRA DE INVERNO DE 2022

12/05/2022 - Atualizado há 2 semanas


Análise e Monitoramento das Condições Oceânicas sobre o Pacífico Equatorial

O atual evento de La Niña teve seu início confirmado pela agência climática norte americana (NOAA) no final de agosto de 2021 e desde então, vem se mantendo ativo e influenciando as condições climáticas no Brasil e em particular na região de atuação das Cooperativas ABC. Esse fenômeno é caracterizado pelo resfriamento anormal das águas do oceano Pacífico e provoca alterações sazonais na circulação geral da atmosfera, afetando o regime de precipitação acumulada e temperatura média do ar em várias partes do planeta.

O seu monitoramento é feito através da variação dos valores de anomalia de temperatura das águas em diferentes regiões do oceano Pacífico. Segundo, as observações oceânicas realizadas desde o início do evento, mostraram que o ápice de resfriamento ocorreu entre o final de 2021 e o início de 2022 com valores de anomalia de até 1,7°C abaixo da média histórica na porção mais a leste, denominada Niño 1+2, categorizando este evento de La Niña como fraco a moderado.

http://sma.fundacaoabc.org/previsao_climatica/evolucao_tsm_12_meses 

Porém, durante o mês de janeiro de 2022 observou-se a presença e o aumento da área de atuação de uma ampla massa de água mais aquecida [bolha] entre 50 e 200 metros de profundidade que estava avançando de oeste para leste e dava o indicativo de deslocamento em direção à superfície, proporcionando a expectativa por parte de alguns modelos climáticos de enfraquecimento do La Niña ou até mesmo o seu término durante o outono com retorno da condição de neutralidade, conforme publicado no material da previsão climática sazonal da Fundação ABC (Figura 2a).

Entretanto, os novos registros de temperatura feitos no mês seguinte e divulgados pela Fundação ABC, mostraram a quebra desse comportamento com o reaparecimento de um novo núcleo de águas frias na parte central do Pacífico, fato este que proporcionou o recuo dessas águas aquecidas que passaram atuar mais no oeste, sobretudo em profundidade e próximo da superfície no extremo leste do Oceano Pacífico. Além disso, a região de águas mais frias em profundidade que até então atuava em grande parte do Pacífico ficaram reprimidas ao extremo leste (Figura 2b) e consequentemente, mantendo a expectativa de enfraquecimento do La Niña.

Geralmente, o aquecimento em subsuperfície das águas do Pacífico prenuncia o fim do La Niña e na maioria das vezes ocorre durante o período do outono, como observado no último evento que teve seu fim declarado em abril de 2021. No entanto, o último boletim climático da Fundação divulgado em 24 de março de 2022, alertou sobre a permanência do La Niña pelo menos durante o próximo trimestre (Abr-Mai-Jun), tendo em vista, o aumento do resfriamento das águas em profundidade, aliado a circulação atmosférica que permanece compatível ao La Niña e sem sinais de mudanças.

Vale ressaltar para o nosso cooperado que os modelos de previsão climática acabaram não considerando estes eventos de aquecimento intercalado com resfriamento do Pacífico em sua base de dados e métodos computacionais e mesmo assim, os impactos da interação oceânica-atmosférica sobre o regime hídrico e térmico previsto na região de atuação das Cooperativas ABC não sofreram tantas oscilações nas atualizações mensais. A Figura 3 mostra a previsão de probabilidade mensal de chuva para o trimestre de MARÇO-ABRIL-MAIO, que corresponde o final do verão e o início do outono, divulgado na atualização de novembro de 2021 (Figura a) e janeiro de 2022 (Figura b), onde em ambas as atualizações houve certa concordância em suas projeções, com exceção para março.

Análise e Monitoramento de Outros Índices Oceânico Atmosféricos

Dada a variabilidade dos principais índices oceânico-atmosféricos, a Fundação ABC buscou outros indicadores que possam auxiliar o monitoramento das condições climáticas em nossa região de atuação. Dentre eles, destacamos a variação de temperaturas das águas sobre o oceano Atlântico Sul, que dependendo do seu comportamento, poderá favorecer ou inibir a formação das nuvens de chuva próximo ao litoral sul do Brasil e consequentemente o ingresso de umidade sobre o continente.

Outro indicador importante para a nossa região é o índice climático Oscilação Antártica, cujo seu cálculo baseia-se na diferença de pressão entre as latitudes de 40°S e 65°S. Quando este índice assume valores negativos, significa que os pulsos da atmosfera conseguem migrar do polo Sul para o continente, reforçando a chegada das frentes frias e o aumento da quantidade de chuva. Quando temos valores positivos, frequentemente observamos as alterações no padrão de circulação atmosférica, que por sua vez dificultam a chegada das frentes frias, refletindo negativamente nos acumulados de precipitação, sobretudo na região de atuação das Cooperativas ABC, nos estados do PR e SP. A vantagem deste índice está no horizonte de previsão de 15 dias, além da atualização diária.

Para fim de exemplo, a Figura 4 mostra a relação entre o indicador climático (oscilação antártica) e a distribuição diária das chuvas registradas em um dos nossos postos de observação agrometeorológico, localizado no campo experimental de Itaberá-SP. Nota-se que toda vez em que o índice mostrou uma tendência de queda ou valores negativos, coincidiu com os períodos de maior volume de chuva, provocados pela passagem de sistemas frontais.

Monitoramento e Previsão das Condições Oceânicas sobre o Pacífico Equatorial

Por fim, segundo último boletim semanal divulgado pela Agência de Meteorologia e Oceanografia dos Estados Unidos (NOAA, sigla em inglês), a probabilidade de manutenção do La Niña está em 64% durante o trimestre de abril-maio-junho/2022, com intensidade prevista entre fraco a moderado, podendo em alguns momentos alcançar o patamar de forte. Para a segunda metade de 2022, pensando na colheita da safra de inverno e principalmente no plantio das culturas de verão (julho a setembro), os modelos climáticos estimam um possível retorno da condição de Neutralidade climática com chance de aproximadamente de 53% contra apenas 27% de La Niña e outros 10% para El Niño (Figura 5).

Prognóstico de precipitação e temperatura para os próximos 6 meses

Com relação à previsibilidade da precipitação acumulada, os diferentes modelos climáticos indicam uma maior probabilidade de alternância entre períodos mais prolongados sem chuva com intervalos curtos de excedente hídrico na região do Grupo ABC, com distribuição bastante irregular das chuvas dentro de um intervalo mensal e também espacialmente que somados poderão trazer riscos para as lavouras. No geral, os diferentes modelos climáticos têm mostrado certa concordância em suas projeções que apontam num cenário pluviométrico desfavorável com aumento da possibilidade de que os acumulados mensais de precipitação fiquem relativamente inferiores à média climatológica entre o período de abril a setembro/2022, conforme divulgada na atualização de março de 2022 do material da previsão climática da Fundação ABC (Figura  6).

As chuvas serão causadas, principalmente pela passagem de frentes frias próximo ao litoral e configuração de área de baixa pressão atmosférico no interior do continente e climatologicamente, os volumes mensais de precipitação tendem a diminuir no decorrer do próximo trimestre e será cada vez mais frequente a configuração de algumas massas de ar frio e seco (sistemas de alta pressão atmosférica), dando origem alguns eventos de veranicos.

 

Para as temperaturas médias do ar, o frio deverá chegar mais cedo em 2022 em função do La Niña com ingresso das primeiras ondas de frio em abril, mas o risco de geada será maior a partir de 20 de maio. Devemos ter períodos mais longos com temperaturas médias do ar variando entre normal a abaixo da normal climatológica, sobretudo entre os meses de abril e junho/2022, porém períodos curtos de calor ainda poderão ocorrer, condição típica de La Niña, onde os extremos de temperatura tornam-se mais comuns. Para o trimestre seguinte (julho a setembro/2022), o cenário previsto será de valores mensais oscilando em torno da média climatológica ou até mesmo acima do normal durante o referido trimestre. Porém, existe a possibilidade de geadas tardias em agosto e setembro, além de pelo menos a passagem de uma ou duas intensas massas de ar polar em julho desse ano.

AVISO IMPORTANTE: o setor de Agrometeorologia da Fundação ABC evidencia que estes pontos de atenção são baseados em cenários futuros proporcionados pelas previsões climáticas e análise de similaridade. Destacamos a necessidade de acompanhamento mensal das atualizações, disponibilizadas mensalmente aos nossos Cooperados e Contribuintes, entre os dias 25 e 30 de cada mês, através do Sistema de Monitoramento Agrometeorológico do Grupo ABC (http://sma.fundacaoabc.org/previsao_climatica).

 

Rodrigo Yoiti Tsukahara
Antonio do Nascimento Oliveira
Agrometeorologia

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