COMO O LA NIÑA VEM REGULANDO O CLIMA NO GRUPO ABC?

29/11/2022 - Atualizado há 2 meses


O fenômeno climático La Niña teve seu início confirmado pelo Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos durante o segundo semestre de 2020 e desde então vêm influenciando as condições climáticas em todo o mundo. Na região de atuação das Cooperativas ABC nos últimos dois anos (2020 e 2021), ficou evidente a ocorrência de estiagens regionalizadas, sobretudo entre o outono e o inverno, além do atraso do início e irregularidade do período chuvoso (primavera). Em relação as temperaturas, observou-se a antecipação das ondas de frio no outono, com formação de geada a partir do terceiro decêndio de abril, registro de temperaturas negativas no 2° e 3° decêndio de julho, bem como alguns eventos de friagem entre agosto e setembro.

Contudo, se fizermos um recorte para 2022, ficam evidentes os maiores volume e frequência das chuvas desde as primeiras semanas de setembro de 2022 sobre a região do Grupo ABC, excedendo inclusive a média histórica (Figura 1). As cores avermelhadas predominantes nos mapas evidenciam o atraso do início do período chuvoso em 2020 e 2021, por influência do La Niña, que acarretou volumes de chuva abaixo do padrão climatológico (anomalia negativa). Por outro lado, em 2022 o cenário foi bem divergente e com predomínio de anomalias positivas (tons em azul), com chuvas acima do padrão normal em decorrência da melhor distribuição e regularidade pluviométrica sobre o Grupo ABC.

Figura 1- Mapas de anomalia mensal de precipitação acumulada para o mês de setembro de 2020, 2021 e 2022 em relação a média histórica (desde 1988). Fonte: smaABC / Fundação ABC.

Essa situação de muita chuva vem desfavorecendo o desenvolvimento final dos cereais e forragens de inverno, impactando principalmente nas características de qualidade dos grãos. No caso das áreas semeadas em agosto e setembro com feijão e milho, o sinal de atenção está relacionado ao encharcamento do solo, menor qualidade da radiação solar e temperaturas mais baixas para essa época do ano, fatores que resultam no favorecimento de algumas doenças radiculares, irregularidade no estabelecimento inicial das lavouras e possível aumento do ciclo dos cultivos de verão. Diante do cenário atual de vários dias consecutivos de chuva volumosa, muita gente vem se perguntando se realmente o La Niña está presente?

 

SIM, O LA NIña ESTÁ PRESENTE E CONTINUARÁ ATIVO ATÉ O INÍCIO DE 2023!

Para o leitor que acompanha a coluna do smaABC, está claro que os fenômenos oceânico-atmosféricos influenciam as condições climáticas em todo o mundo, e que neste episódio de La Niña, seus impactos podem ser monitorados e previstos há pelo menos 3 anos consecutivos.

Porém, os impactos do La Niña esperados sobre o regime de chuva e temperatura do ar podem ser modificados por fatores meteorológicos de escala regional, ligados por exemplo a frequência de passagem de frentes frias, formação de ciclones, presença de regiões de crista ou cavados e atuação de áreas de alta pressão atmosférico. Todos esses sistemas possuem escala temporal de alguns dias, mas que dependendo da sua periodicidade e magnitude, podem exercer um papel primordial na variabilidade climática local. Além disso, quando tratamos de Brasil e em particular a região do Grupo ABC, não podemos deixar de lado a forte influência que o Oceano Atlântico desempenha nos processos de transferência de calor e umidade para atmosfera, modelando o posicionamento desses sistemas transientes e consequentemente afetando a distribuição, frequência e intensidade das chuvas, além do comportamento das temperaturas ao longo das semanas.

Nos últimos dois meses de 2022 (setembro e outubro) as condições atmosféricas observadas na região do Grupo ABC (chuvas acima da média) foram amplamente influenciadas pela passagem de um total de 11 sistemas frontais, sendo a sua grande maioria com posicionamento mais oceânico. Esta maior quantidade de sistemas frontais (em relação a climatologia) associada ao acoplamento da instabilidade presente no oceano favoreceram o cenário de chuvas intensas. Por fim, soma-se ainda a alteração do padrão de circulação dos ventos em diferentes níveis da atmosfera, que permitiu o maior transporte de umidade e calor, vindo da bacia hidrográfica Amazônica para áreas do centro-sul do Brasil.

As Figuras 2a e 2b mostram o posicionamento médio da corrente de jato sobre o território brasileiro e a faixa de nebulosidade formada, respectivamente. Essa condição favoreceu a configuração de um canal de umidade que por várias semanas manteve a atmosfera bem instável, com predomínio de dias com céu encoberto e espalhando várias áreas de chuva de moderada a forte intensidade sobre o Paraná e região do Grupo ABC. Esse intenso e amplo fluxo de umidade vindo da região Amazônica também foi responsável por reforçar as áreas de instabilidade das frentes frias que avançaram próximo ao litoral Sul do Brasil, criando uma situação bem favorável para aumento na frequência de tempestades com muitos raios e acompanhados de algumas rajadas de vento.

Por fim, ressaltamos aqui alguns registros meteorológicos observados em nossa rede de estações automáticas durante o mês de setembro e os primeiros 20 dias de outubro de 2022 (Tabela 1). Num período de 50 dias (01/09 a 20/10) foram registrados acumulados de precipitação acima dos 350mm com máximo de até 434mm. Em alguns locais, a instabilidade provocou acumulado diário de chuva em torno de 58,6mm no dia 20/10 na estação de Ortigueira, Caraguatá e 53,2mm no dia 26/09 em Tibagi, Hirooka ambas no estado do Paraná. Com relação a frequência de dias com chuva, os dados mostraram que dos 50 dias observados tivemos mais de 30 dias de chuva, que corresponde mais de 60% do período e isso acabou refletindo em um aumento da quantidade de dias com céu encoberto e maior número de horas com umidade relativa do ar acima dos 90%.

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