El Niño: O que entendemos e o que esperar para 2024

El Niño: O que entendemos e o que esperar para 2024

24/04/2024 - Atualizado há 4 semanas


O episódio atual do fenômeno El Nino, que iniciou em junho de 2023 apresenta sinais de enfraquecimento neste primeiro trimestre de 2024, comprovado pelo resfriamento das águas em sub superfície e intensificação dos ventos alísios na região tropical do Oceano Pacífico. Em função da sua rápida evolução e intensificação, muita expectativa foi gerada ao redor do globo,
dada a similaridade e impactos negativos causados pelos eventos de 1997 /98 e2015/16. Contudo, apesar da intensa busca dos cientistas por sinais oceanoatmosféricos que possam ser traduzidos
em padrões climáticos ao redor do globo terrestre, nenhum evento é igual aos anteriores, principalmente quando pensamos nos reflexos que esta imensa movimentação de energia causa nas
múltiplas interações com cada tipo climático regional.

Desta forma, estudar a formação, evolução e os impactos causados por estes episódios de forte intensidade em diferentes escalas de tempo e espaço pode ser considerado essencial tanto para a
melhoria no desempenho dos modelos de previsão climática (dinâmicos e estatísticos), quanto para melhor mitigar seus impactos em setores como a agricultura, pecuária, floresta e produção
de energia. Por fim, destacamos ainda nesta matéria a manutenção da tendência de resfriamento do Pacifico Equatorial, com possível confirmação de um novo episódio de La Nina durante a safra de inverno 2024!

Episódio clássico de um evento de El Niño: em intervalos irregulares, entre dois ou sete anos, observa-se um aumento significativo da temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial Central (região do Nino 3.4) e Oriental (regiões dos Nino 3 e 1 +2), de pelo menos 0,5ºC em relação à média histórica. Tal condição oceânica desencadeia mudanças nos padrões de pressão atmosférica e circulação dos ventos sobre a região do Pacifico, afetando consequentemente o posicionamento e a frequência dos sistemas meteorológicos que avançam pela América do
Sul.

Geralmente, a região Sul do Brasil tende a receber mais chuvas durante o El Niño, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar estiagens.
Em relação as temperaturas, normalmente observa-se o predomínio de valores acima do padrão climatológico em boa parte do território brasileiro, porém seus efeitos variam muito em
função da intensidade e duração de cada evento.

Caracterização do evento de El Niño 2023/2024: o conjunto de bóias oceânicas registrou a gradual e crescente elevação da temperatura na região do Niño 3.4 3.4 desde o inicio em junho de
2023. Após a tendência consecutiva de aquecimento da TSM nos 4 meses seguintes, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos alterou a classificação do episódio atual de El Nino para “intensidade forte”, quando o registro da anomalia positiva em novembro alcançou 1,9ºC acima da média histórica na região mais central do Pacífico Equatorial, conhecida como Nino 3.4. Em dezembro de 2023, quando é normalmente esperado o ápice de um episódio de El Nino, a anomalia da TSM média atingiu 2,0ºC, causando muita apreensão de alguns setores da economia brasileira, em especial a agropecuária e produção de energia nas regiões mais ao norte do país.

Após o ápice observado do final de 2023, durante os dois primeiros meses de 2024 foi registrado um gradual resfriamento das águas superficiais do Pacifico, especialmente na porção mais
a leste, junto a costa oeste da América do Sul, onde os valores de temperatura da superfície do mar já começam apresentar desvios negativos em torno de -O, 1 ºC em relação à média histórica
(Figura 1), assim como em subsuperfície (Figura 2). Contudo, apesar do enfraquecimento na intensidade do fenômeno, em todas as regiões de monitoramento da temperatura do mar (Figura
1), a NOAA ainda mantém a classificação atual do El Nino como categoria moderado a forte.

 

 

Por outro lado, a análise de similaridade com os episódios de 1997 /98 e 2015/16, ambos categorizados como episódios “muito fortes” ainda permanecem válidas, principalmente quando
observamos: 1) a velocidade do aquecimento das águas na região do Nifio 3.4 a partir do mês de junho, 2) a anomalia negativa da chuva durante pelo menos  1 dos meses de verão na região das
Cooperativas ABC e 3) transição de um evento muito forte de El Nifio para um episódio de La Nifia, logo após um curto período com Neutralidade (apenas 3 meses de transição).

Tendências observadas na região das Cooperativas ABC, em episódios de El Nifto de Forte Intensidade:

Com a previsão do El Nifio a partir de junho de 2023, os reflexos esperados em relação ao regime pluviométrico e temperaturas tanto na região Sul, quanto no Norte do país se tornam bem previsíveis. Contudo, especialmente na região dos Campos Gerais e Norte Pioneiro do Paraná, assim como Sul do São Paulo, os episódios de El Nino de intensidade forte ou muito forte frequentemente foram representados por anomalias negativas ( chuva abaixo da média histórica) em pelo menos 1 dos meses da estação de verão (Figura 3). Porém neste episódio, pelo menos 2 meses foram observadas anomalias negativas (dezembro e janeiro). Na mesma figura,nota-se o predomínio das anomalias positivas (acima da média histórica) da temperatura máxima no Paraná e São Paulo, além do Tocantins (Figura 5) fato este também observado em episódios fortes ou muito fortes. A exceção entre o esperado para eventos de El Nifio com forte ou muito forte intensidade foi a região de Goiás, onde observou-se precipitações acima da média nos meses de janeiro e fevereiro de 2024, associados a temperatura máxima abaixo da média histórica (Figura 4). Esta “falta de padrão” entre episódios do ENOS versus o regime de chuvas ou temperatura em Goiás pode ser justificada pelo efeito da continentalidade (menor ao sul e norte do país), associada a influência de outros fenômenos em menor escala espacial e temporal.

 

 

O que podemos esperar para o Outono e Inverno de 2024?

A expectativa para os próximos meses por parte da maioria dos modelos de previsão climática é de que entre abril e junho/2024, a temperatura do Pacífico equatorial retorne para valores entre ±0,5ºC em relação à média histórica, ou seja, indicando o retorno da condição de NEUTRALIDADE climática (Figura 6). Posteriormente, as projeções indicam uma crescente probabilidade
de ocorrência do fenômeno La Nina durante o segundo semestre de 2024. De acordo com a mais recente atualização da NOAA, divulgada na semana do dia 25 de março de 2024, o La Nina pode se estabelecer durante a transição entre o inverno e a primavera, possivelmente impactando negativamente o início da estação chuvosa em 2024 no sul do Brasil. Tendo em vista que os modelos estão projetando um cenário menos chuvoso para o trimestre de julho-agosto-setembro/2024 na região do Grupo ABC (Figura 7).

O que aconteceu com a produtividade do trigo, em safras sob atuação da Neutralidade ou La Niña?

Diante da crescente probabilidade de transição do El Nino para Neutralidade associado ao provável retomo da La Nina em 2024, nós evidenciamos a análise publicada na edição de abril de 2019 na Revista ABC e convidamos o leitor para uma releitura dos resultados da rentabilidade média do trigo obtida na região de atuação das Cooperativas ABC, durante 24 safras de inverno sob  influência do El Nino, La Nina e Neutralidade (Tabela 1). Em resumo, os resultados demonstram que não houve safras excelentes quanto a produtividade de trigo em episódios de El Nino. Ao contrário, 25% das safras com produtividades ruins (mais de 1 desvio padrão abaixo da média) estiveram associadas ao El Nino, provavelmente em função das chuvas acima da média e seus efeitos sobre a perda do controle fitossanitário, atraso na colheita e piora dos atributos de qualidade (número queda, rnicotoxinas, PH). Por outro lado, durante as safras de inverno sob influência do La Nina observou-se 0% de casos de produtividades classificadas como ruins neste período de 24 anos. Já a produtividade foi categorizada em 57% dos casos, e o melhor: 28% das safras de inverno  apresentaram produtividade entre boa e excelente, provavelmente em função da redução das chuvas e da umidade relativa do ar (menos doenças de folha e espigas), menores temperaturas  aumento do ciclo, menor incidência de pragas) associado ao aumento da radiação solar (maior qualidade).

 

 

 

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