
As condições meteorológicas extremas registradas nos últimos meses sobre o Brasil têm chamado atenção devido ao grau de severidade e abrangência. Eventos extremos de chuva ao longo do mês de maio no estado do Rio Grande do Sul (acima de 600mm), que provocaram inundações em várias cidades, deslizamentos de terra, destruição de pontes, casas e rodovias e perda de centenas de vidas.
Por outro lado, no restante do território brasileiro destacou-se as altas temperaturas no outono e início do inverno, associado a baixa saturação de vapor de água na atmosfera e um veranico de pelos menos 30 dias, com consequências negativas para os setores de energia, saúde, e agropecuária e meio ambiente, com recorde de focos de incêndio florestal no Pantanal.
Estas condições meteorológicas tão distintas podem ser explicadas pela atuação persistente de uma intensa e ampla massa de ar seco, associada a um sistema de alta pressão atmosférica, que deu origem a um evento meteorológico conhecido como bloqueio atmosférico. Esse tipo de evento não é algo raro e pode ocorrer em qualquer época do ano, porém é mais frequentes durante os meses de outono e inverno e menos frequentes na primavera e sobretudo no verão.
Nos últimos dois meses foram registrados a presença de dois bloqueios atmosféricos, sendo o primeiro iniciado em maio, com duração média em torno de 23 a 26 dias consecutivos sem nenhum registro de chuva. O segundo ocorreu no começo de junho, que superou o grau de severidade do primeiro evento e teve duração de pelo menos 30 dias em grande parte do Brasil.
Muitos estudos têm mostrado que eventos extremos como tempestades severas, vendavais, ressacas, ondas de calor e frio entre outros, apresentaram maior frequência e intensidade nos últimos anos, o que nos leva a projetar esta mesma tendência para os próximos anos. Por isso, destacamos nesta matéria, a importância dos nossos leitores aprofundarem o entendimento teórico sobre bloqueios atmosféricos, como monitorar e principalmente como mitigar seus impactos, especialmente no setor agropecuário!
A seguir, apresentamos um exemplo de imagem do satélite meteorológico GOES-16, referente às 00h00min do dia 25/06/2024, disponível no módulo de “Tempo Agora” da plataforma sigmaABC, onde são destacadas através da paleta de cores, as nuvens com temperaturas de topo inferiores a -20°C. Esse tipo de nebulosidade pode acarretar numa condição de tempo severo, associado a tempestades e o seu monitoramento pode ser feito através desse tipo de produto meteorológico. Observa-se que praticamente não há áreas de instabilidade na maioria dos estados do Brasil (Figura 1), com exceção para a região Sul e em áreas do extremo norte do Brasil, muito em decorrência do estabelecimento do bloqueio atmosférico.

Processo de formação dos bloqueios atmosféricos
A circulação atmosférica nas latitudes médias (30°S a 60ºS) é marcada pela presença de fortes correntes de vento em altos níveis (2.500hPa ou 10.000m), conhecidas como jatos de altos níveis, que sopram de oeste para leste. Esses jatos são responsáveis pelo deslocamento dos sistemas meteorológicos, como frentes frias, ciclones e anticiclones, em direção ao leste.
No entanto, essa circulação pode ser interrompida pela presença de um anticiclone (alta pressão atmosférica) quase estacionário em torno de 45°S (frequentemente), o que impede a progressão dos sistemas sinóticos para leste e consequentemente o avanço das chuvas para o restante do país, ficando restritas ao Sul do Brasil, causando precipitações fora do normal, além das altas temperaturas fora de época no Centro-Oeste e Sudeste. A seguir, temos uma ilustração elaborada pela Climatempo que explica, em termos gerais como os bloqueios atmosféricos impulsionaram as chuvas no RS e a onda de calor no restante do Brasil (Figura 2).

Com a atuação persistente desse sistema, os dias tendem a ficar mais secos e ensolarados, impulsionando naturalmente um cenário de forte calor. Por exemplo, a região do Grupo ABC em especial toda faixa mais ao norte, vem registrando temperaturas máximas do ar de até 5°C acima da média histórica para o mês de junho (Figura 3). Dentre as áreas monitoradas pela Fundação ABC, a região de Itaberá no estado de São Paulo, tem apresentado em 2024 valores de temperatura máxima mais quente nos últimos 17 anos, já na região fria do Grupo ABC, as médias estão variando entre 2 até 3°C acima do padrão normal e sem nenhum indicativo de geada, ou seja, algo pouco incomum para região do Grupo ABC nesta época do ano.



Produtores que participaram das reuniões de planejamento de safra, que ocorreram durante o mês de maio, por algumas unidades das cooperativas mantenedoras, avaliaram o conteúdo apresentado pela equipe de pesquisadores da Fundação ABC como ‘muito relevante’. Se incluir ainda os votos para ‘relevante’, a soma totaliza os cem por cento.
Para estes encontros, o time presentou informações importantes para ajudar os produtores na programação da próxima safra verão. A escolha dos temas foi definida junto com os coordenadores técnicos agrícola de cada cooperativa. Ao todo, foram 27 apresentações, que ocorreram em nove encontros.
Segundo Sílvio Bona, coordenador de marketing, a escolha dos temas junto com o coordenador técnico de cada cooperativa tem o objetivo de levar ao produtor um conteúdo de relevância.
“Como a assistência técnica está mais próxima dos agricultores, por conta das visitas semanais, eles conseguem nos apontar os assuntos que podem ajudar os produtores sanar dúvidas e problemas que estão ocorrendo naquela região, além da atualização das indicações dos melhores genótipos para o próximo plantio, que já é de praxe”, explicou.
Na opinião de Edson Martins de Oliveira, Gerente de Insumos na Castrolanda, os encontros trouxeram informações de apoio aos produtores. “Os desafios para esta safra são de ordem financeira, técnica e climatológica. E foram assuntos nestas áreas que buscamos junto a Fundação ABC. Acredito que conhecer a competitividade dos materiais genéticos de soja e novas biotecnologias, ter clareza da tendência do clima para a curto e médio prazo e avaliar os números e as perspectivas de rentabilidade com as diferentes culturas trarão melhores resultados ao nosso cooperado”, complementou.
Os encontros foram realizados no segundo semestre de maio, ainda dentro das janelas de programação de safra das cooperativas. Foram quatro encontros em São Paulo, sendo em Itapeva, Taquarituba, Taquarivaí e Itararé. E ainda outros quatro no Paraná, em Arapoti, Carambeí, Castro e Piraí do Sul. Ao todo, 303 produtores participaram dos encontros. Como de costume, a Fundação ABC solicita aos participantes para avaliarem as apresentações. A nota média foi de 9,54, numa escala de zero a dez. Os produtores também avaliaram a relevância do conteúdo que foi apresentado, ou seja, se valeu a pena assistir a palestra. E é daí que saiu o título desta reportagem, na qual 75% dos presentes avaliaram como ‘muito relevante’ e 25% como “relevante”.

Marcos Kazuyuki Kamigoga, que é agricultor em Ponta Grossa (PR) e cooperado da Frísia, é um dos que saiu da reunião muito satisfeito. “Eu quase não fui porque tinha um outro compromisso,
mas acabei indo e não me arrependi. Inclusive já troquei os cultivares que tinha intenção de plantar nesta safra, com base no que foi apresentado”, contou.
Para Luis Henrique Penckowski, gerente Geral na fundação, o resultado vem ao encontro de um dos pilares do Planejamento Estratégico da instituição, implantado no segundo semestre de 2023, que é a proximidade com o produtor. “Queremos ver cada vez mais produtores participando neste encontro que é um ganha-ganha. É bom tanto para o cooperado como também para o nosso time de pesquisa, pois a troca de experiências enriquecem o conhecimento de todos”, finalizou.
Apresentações de Resultados para os assistentes técnicos
Como de costume, as apresentações dos resultados dos trabalhos realizados durante a última safra verão foram apresentados primeiramente aos assistentes técnicos cadastrados na Fundação ABC.
As apresentações foram divididas em duas partes e realizadas na primeira quinzena de maio. Na primeira etapa, ocorreram as apresentações dos setores de Forragens & Grãos, Solos e Nutrição de Plantas, Entomologia e Fitotecnia e Sistemas de Produção, realizadas nos dias 2 e 3 de maio.
Já na segunda etapa, ocorrida nos dias 16 e 17 de maio, apresentaram os setores de Solos e Nutrição de Plantas Herbologia, Fitopatologia, Entomologia e Fitotecnia e Sistemas de Produção. Em junho, no dia 5, os assistentes técnicos que atuam no cerrado brasileiro, pela Frísia e KGL Agronegócio também tiveram um encontro com os pesquisadores da fundação.
Segundo levantamento junto as listas de presença, a presença dos técnicos foi de 87,5% e de acordo com a avaliação realizada a cada apresentação, 76% consideraram a primeira etapa como muito relevante e na segunda etapa, 80%.

Este texto representa um resumo do trabalho técnico de pesquisa dos setores de Entomologia, Forragens & Grãos e MAAP (Mecanização Agrícola e Tecnologia de Aplicação), qual foi apresentado no 27º Show Tecnológico de Verão da Fundação ABC em Ponta Grossa (PR), 2024.
Atualmente a área agrícola do grupo ABC ultrapassou a barreira de 600 mil hectares de área física. Dentre as principais culturas, o milho tem grande destaque na Fundação ABC, atuando com cerca de 200 mil hectares, representado por próximo de 100 mil ha na safra de verão e 100 mil ha na segunda safra (safrinha) que neste caso, atendem os estados de PR, SP, MG, DF, GO e TO, quais estão presentes no grupo.
Nos últimos anos a cigarrinha-do-milho, Dalbulus maidis, se tornou uma das principais preocupações dos agricultores e pecuaristas que cultivam milho. Por se tratar de um inseto-vetor de patógenos, dependendo da época de infecção e suscetibilidade do genótipo podem ocasionar perdas de até 100%.
A cigarrinha é um inseto sugador, ocasionando danos diretos em milho, porém, seu potencial de dano é elevado por se tratar de um inseto-vetor dos patógenos espiroplasma (Spiroplasma kunkelii), fitoplasma (Maize bushy stunt; MBS-fitoplasma) e do Maize rayado fino virus (MRFV), agentes causais das doenças sistêmicas do milho denominadas enfezamentos e vírus da risca, respectivamente. O espiroplasma e o fitoplasma são microrganismos procariontes, sem parede celular, e pertencem à classe Mollicutes, sendo denominados comumente como molicutes.
Uma mesma planta de milho pode ser infectada por apenas um ou, simultaneamente, por ambos os molicutes, por esse motivo, a dificuldade em diferenciar os enfezamentos com base apenas no diagnóstico visual da planta. Os sintomas são similares e podem ser influenciados pelo genótipo de milho, condições climáticas e o momento em que plântula foi infectada, podendo ocorrer infecção simultânea dos molicutes com o vírus da risca e com o vírus do mosaico comum do milho, este último transmitido por pulgões, por este motivo se tem utilizado o termo “Complexo de Molicutes e Vírus” ao se referir a esses patógenos. Geralmente, a infecção com os molicutes ocorre nos estádios iniciais de desenvolvimento do milho, porém os sintomas e os danos causados por esses patógenos aparecem na fase reprodutiva das plantas.
Plantas com enfezamento formam menos raízes que as plantas sadias, apresentam internódios mais curtos, podem se tornar pequenas e improdutivas.

Sintomas foliares dos enfezamentos caracterizam-se pela descoloração nas margens e na parte apical das folhas e, em seguida, secamento ou avermelhamento nas folhas superiores da planta, a intensidade do avermelhamento é variável conforme o genótipo de milho.

As espigas têm tamanho reduzido, falhas no enchimento de grãos e grãos “chochos”. Podem ocorrer outros sintomas como proliferação de espigas, brotamento nas axilas das folhas, má formação das palhas das espigas.

Dependendo da região de plantio e do nível de resistência do genótipo de milho, as plantas com enfezamento podem ser colonizadas por outros patógenos como Phytium spp., Diplodia spp. e Fusarium spp., provocando a quebra e acamamento de plantas.

O Maize rayado fino virus (MRFV) caracteriza-se pelos pontos cloróticos paralelos às nervuras secundárias das folhas, que coalescem e apresentam aspecto de riscas, claramente visíveis quando observados contra a luz do sul. Esses sintomas manifestam-se nas folhas em curto período após a infecção, independente do estádio da cultura do milho.
O Maize rayado fino virus (MRFV) caracteriza-se pelos pontos cloróticos paralelos às nervuras secundárias das folhas, que coalescem e apresentam aspecto de riscas, claramente visíveis quando observados contra a luz do sul. Esses sintomas manifestam-se nas folhas em curto período após a infecção, independente do estádio da cultura do milho.
A cigarrinha do milho tem preferência por colonizar plantas de milho na fase inicial do estabelecimento da cultura, principalmente de VE (emergência) a V8 (8 folhas expandidas). Esse inseto-vetor tem a cultura do milho como hospedeiro obrigatório para a sua multiplicação, porém pode utilizar outras gramíneas como “plantas abrigo”, cultivadas ou plantas daninhas.
É importante ressaltar que a evolução da ocorrência do complexo de molicutes e vírus na região sudeste e sul do país está diretamente relacionada à intensificação do sistema de produção, a ampliação das épocas de semeadura (safra e segunda safra) e a grande quantidade de milho voluntário (tiguera) na entressafra, possibilitando a manutenção de plantas de milho disponíveis por um maior período para a alimentação da cigarrinha contaminada, promovendo modificações importantes na dinâmica populacional dessa praga, com populações elevadas do inseto não apenas no milho segunda safra mas também nas áreas semeadas no final do mês de agosto e início de setembro.
O manejo do complexo de enfezamentos requer ações preventivas para redução das fontes de inóculo e para redução dos níveis populacionais da cigarrinha, ações estas que devem ser adotadas por todos os produtores de milho na região, ressaltando que não há uma única medida altamente efetiva que aplicada isoladamente possa controlar o complexo de enfezamentos.

temos que lembrar de alguns conceitos como a taxa de aplicação (L/ha) e o tamanho de gotas. É conhecido que esses dois fatores impactam diretamente na cobertura do alvo, portanto dependendo da aplicação a ser realizada e o alvo, é possível adequar esses fatores para se obter o mínimo de cobertura necessária para ter um bom controle. Geralmente, quanto menor a gota e maior a taxa de aplicação, maior será a cobertura do alvo.
Sendo assim, os produtores que trabalham com taxas menores como 40 a 60 L/ha precisam trabalhar com gotas mais finas para conseguir manter um mínimo de cobertura, enquanto produtores que trabalham com taxas acima de 100 L/ha têm mais flexibilidade para utilizar tamanhos de gotas maiores em caso de condições ambientais adversas, com temperaturas acima de 30ºC, umidade abaixo de 50% e velocidade do vento acima de 10 km/h, e com isso conseguem reduzir a perda por deriva. Com exceção às aplicações de herbicidas sistêmicos, que permitem trabalhar com taxas menores e gotas mais grossas.
Levando em conta um compilado de 10 anos de pesquisas realizadas na Fundação ABC, do ponto de vista da eficácia de controle de pragas e doenças, a taxa de aplicação historicamente tem um impacto maior sobre o sucesso da aplicação quando comparado ao tamanho de gotas, ou seja, em anos de alta pressão de pragas ou doenças foram observadas uma redução no controle quando utilizando taxas menores, mesmo trabalhando com gotas mais finas. Os resultados preliminares dos ensaios para controle da cigarrinha no milho apontam no mesmo sentido, os tratamentos com taxas menores (50 L/ha), mesmo com gotas mais finas estão entregando um controle menor do que as taxas de 100 L/ha com gotas médias.
Uma tecnologia que vem crescendo a adoção é o monitoramento em tempo real das condições ambientais no momento da aplicação com uso de pequenas estações meteorológicas instaladas no próprio pulverizador, permitindo que o operador possa tomar a decisão de parar uma aplicação ou adequar a ponta de pulverização para a situação atual. E outra ferramenta que pode auxiliar e trabalhar em conjunto com os dados ambientais é o uso de discos rotativos no lugar das pontas de pulverização, como os utilizados nos drones, pois permitem a alteração do tamanho de gota sem precisar parar a operação. Sistemas como esse para instalação na barra do pulverizador já está sendo oferecido na Argentina.
E uma outra ferramenta que também está sendo testada na Fundação ABC são os sensores ópticos instalados na barra do pulverizador que conseguem identificar quando tem uma planta viva e acionar uma válvula PWM que abre a ponta de pulverização a tempo de aplicar o defensivo sobre ela. O conceito original foi desenvolvido para aplicação de herbicidas somente sobre as plantas daninhas, porém as aplicações de inseticidas somente sobre as plantas de milho visando controle de cigarrinha apresentou economias acima de 80% na primeira aplicação quando o milho está no estádio VE. E nas aplicações seguintes essa economia vai reduzindo conforme as plantas vão se desenvolvendo e diminui a área de solo exposto.
Vale destacar que a eficiência no manejo da praga está atrelada ao conjunto de fatores e neste quesito, a genética representa enorme importância. A escolha do híbrido tolerante traz um benefício imediato ao produtor por reduzir o potencial de inóculo dos patógenos presentes na lavoura. É consenso entre pesquisadores e técnicos que o uso de híbridos tolerantes é a medida mais efetiva para o manejo dos enfezamentos do milho.
Mais de 120 genótipos de milho foram pesquisados na safra de verão 2022/2023 e safrinha 2023, o ponto preocupante é que atualmente nos ensaios, apenas 40% dos híbridos estudados se classificam em tolerantes e quando partimos para a safrinha de milho os dados são mais agravantes, pois os números de híbridos tolerantes estão próximo de 10%.
A perda de produtividade dos híbridos na presença da cigarrinha infectada é visível nos ensaios com alta infestação da praga. No ensaio de milho verão, realizado em Arapoti (PR), safra 2022-2023, com alta infestação de Dalbulus maidis desde o início de desenvolvimento da cultura, os dados analisados apresentaram correlação de 80% entre aumento do índice de enfezamento x redução de produtividade (Figura 10). A maior produtividade foi de 15.840 kg.ha-1 com índice de enfezamento de 9%, já o híbrido com menor produtividade apresentou 8.854 kg.ha-1 e índice de enfezamento de 45%.

Outro ponto relevante, é que o grupo ABC está em uma das maiores bacias leiteiras do Brasil, no ano de 2023, no período de julho a produção diária de leite nas cooperativas da região ultrapassou os 2,5 milhões de litros de leite e a silagem de planta inteira de milho é a principal fonte de alimento do bovino leiteiro.
No trabalho realizado pelo setor de Forragens & Grãos, avaliando o impacto de produtividade de massa seca das plantas de milho com sintomas de enfezamento x sem sintomas de enfezamento em 10 híbridos, a perda média de produtividade foi de 51,6%, ou seja, reduziu a produção de alimentos em mais de 50% (Figura 11). É importante salientar que neste trabalho, outro fator impactante causado pelo enfezamento foi a perda do valor nutricional da silagem associado a maiores índices de micotoxina no alimento.

Ainda assim, a resistência genética deve ser entendida como mais uma opção no conjunto de medidas para o manejo do complexo cigarrinha-enfezamento e não como prática isolada. Assim, é importante entender o sistema de produção e o conhecimento das interações entre o inseto-vetor e o ambiente onde a cultura está inserida.
A utilização de inseticidas, quando realizada de forma adequada, levando em consideração a presença da praga e a reação dos genótipos de milho aos enfezamentos, é opção imprescindível no manejo da cigarrinha-do-milho. Vale ressaltar que as pulverizações devem ser realizadas desde o início do desenvolvimento da cultura até o estádio de 8 folhas (V8), período de maior suscetibilidade da cultura aos patógenos transmitidos pela cigarrinha, o número de pulverizações e o intervalo entre elas vai depender da tolerância dos genótipos de milho aos enfezamentos.
Em 1989, os produtores da região dos Campos Gerais tinham muitos desafios, no início do SPD. Um deles era ter um sistema rentável e ao mesmo tempo favorável para a qualidade do solo. Um ensaio com diferentes ideias de sequências de culturas foi instalado para tentar responder essas dúvidas. Ao longo dos últimos 35 anos, esse ensaio gerou dados muito importantes para entender os caminhos de uma agricultura rentável e sustentável. Aqui, compartilhamos alguns aprendizados.

Na última edição do Show Tecnológico de Verão, foram apresentados os resultados e os principais aprendizados de um dos ensaios mais antigos de plantio direto do país. Desde 1989, a Fundação ABC conduz esse ensaio com o objetivo de avaliar os impactos no solo, na produtividade e na rentabilidade em sistema plantio direto em um ensaio instalado em Ponta Grossa-PR.
Na ocasião do evento, foi aberta uma trincheira com mais de 1,5 m de altura, com o objetivo de observar melhor o solo e, principalmente, os sistemas radiculares das culturas instaladas (Figura 1).
Mas, afinal, por que conduzir ensaios durante tanto tempo? Qual a importância disso?
Ao observar resultados por longo período no mesmo ensaio, é possível identificar tendências, padrões e potenciais desafios que podem não ser tão aparentes em estudos de curto prazo. Portanto, os ensaios de longo prazo desempenham um papel fundamental no desenvolvimento de práticas agrícolas mais rentáveis e sustentáveis, auxiliando o produtor a ter rentabilidade e qualidade do solo para as próximas gerações sob diferentes cenários e desafios no presente e no futuro.
Conhecendo o experimento
O principal foco desse estudo, desde o início, é a sustentabilidade do negócio dos produtores. Como garantir rentabilidade constante a médio e longo prazo, sem comprometer a qualidade do solo? Aqui, é importante relembrar o cenário de 1989. O sistema plantio direto estava ainda com muitos desafios, embora já utilizado em larga escala na nossa região. E o cenário dramático de perdas expressivas de solo por erosão era algo ainda muito presente no cotidiano dos produtores. Estava bem clara a importância da palhada e do não-revolvimento do solo. Porém, como encaixar culturas que pudessem oferecer rentabilidade sem comprometer a produção de palha?
Visando enfrentar esses desafios, foi implementado em 1989 esse ensaio, testando diferentes sistemas de rotação/sucessão de culturas, todos em sistema plantio direto (Tabela 1). Desde então, o solo nunca mais foi revolvido, e as sequências permaneceram inalteradas, por 35 anos. Como pode ser observado, os sistemas testados têm diferentes níveis de diversidade de culturas, assim como de objetivos.

Tabela 1. Sistemas de rotação de culturas avaliados no ensaio desde 1989.
Resultados do ensaio – Produtividade de grãos
Nesse ensaio, as principais culturas a serem consideradas quando se tem o objetivo de avaliar o impacto da rotação sobre a produtividade de grãos são o trigo e a soja.
O trigo foi a cultura mais afetada pelos diferentes sistemas de rotação de cultura. No sistema trigo-soja a produtividade do trigo foi inferior na maior parte das safras quando comparada com a produtividade do sistema 2 e 4. Esse efeito é um reflexo principalmente da maior ocorrência de patógenos que se multiplicam nos restos culturais, como é o caso dos patógenos causadores de doenças como o mal-do-pé e manchas foliares.
A produtividade da soja foi afetada também pela rotação de culturas, no entanto o efeito na soja depende do período considerado. De 1989 até 2006, na grande maioria das safras avaliadas a soja apresentou menor produtividade de grãos no sistema trigo-soja em comparação com os sistemas mais diversificados. Por outro lado, a partir de 2006 essa diferença não foi mais observada. O principal fator que explica esse fato é a entrada da ferrugem asiática da soja e o início do uso de fungicidas na cultura. Com o uso de fungicidas, a maioria das doenças de final de ciclo também passaram a ser controladas. No entanto, é interessante observar também que a partir de 2016 essa diferença retornou, ou seja, a produtividade de soja foi superior nos tratamentos 2 e 4 em comparação com o sistema 1 (trigo-soja).
Cabe ressaltar que nos últimos 10 anos houve uma evolução muito grande no potencial produtivo das variedades de soja, que se tornaram mais precoces, mais produtivas, e, consequentemente, muito mais exigentes. Se tornou comum também a ocorrência de outras doenças que permanecem nos restos culturais, como é o caso da Macrophomina e do mofo branco. Esses resultados mostram claramente a importância de um estudo de longo prazo para esse tipo de avaliação. Dependendo do período considerado, a conclusão pode ser totalmente diferente. No entanto, ao considerarmos o cenário completo, é muito claro que o sistema pode beneficiar a produtividade da soja quando é mais diversificado, principalmente sob condições de alto potencial produtivo.

Qualidade do solo: Aprendizados importantes
A qualidade do solo (ou saúde do solo) é um fator fundamental a ser considerado nos sistemas agrícolas. É sempre importante relembrar que o solo é o principal patrimônio que o produtor possui. Se não houver qualidade no solo, não há produção, não há rentabilidade e, consequentemente, não há produtor.
A qualidade física do solo em função dos diferentes sistemas de produção está sendo avaliada e há diversas variáveis que precisam ser consideradas e que estarão relacionadas com a capacidade de armazenamento de água e ambiente para crescimento de raízes. Nesse momento, foi usada a avaliação de densidade do solo para ter um panorama geral da física do solo avaliado. Os sistemas com alfafa e azevém apresentaram valores mais favoráveis, embora essa resposta seja dependente da profundidade avaliada. O maior aprendizado nesse caso é a importância de culturas com grande volume de raízes, como é o caso da alfafa e do azevém.
A qualidade química do solo foi influenciada principalmente pelo manejo de adubação e correção utilizado. De modo geral, foi possível observar aumentos nos teores de fósforo (P), potássio (K) e enxofre (S) nos sistemas onde houve maior adição desses nutrientes, como é o caso do sistema 6. Com relação ao K, há em geral maior concentração desse nutriente nas camadas mais superficiais nos sistemas com milho na rotação. Esse efeito é bem conhecido, uma vez que o milho normalmente extrai altas quantidades de K em diferentes camadas, porém exporta uma pequena fração da quantidade extraída. Desse modo, a palhada se decompõe e o K fica concentrado na superfície. Tal dinâmica foi visível ao abrir a trincheira: as raízes de milho se desenvolvem a camadas superiores a 1,5m de modo que reciclam este K de camadas profundas.
A acidez do solo foi corrigida periodicamente, sempre que a análise de solo indicava a necessidade de calagem. A correção foi feita de maneira individualizada para cada tratamento. Foi possível observar que alguns sistemas com grande aporte de adubação nitrogenada, como é o caso do sistema 5, com azevém anualmente, a acidez está em níveis elevados, mesmo com as correções comumente realizadas. De modo geral, o que se observa é uma relação direta da adubação nitrogenada sobre a acidificação, o que confirma de maneira clara que esse é o principal fator a ser considerado na acidificação do solo em sistema plantio direto.

A qualidade biológica do solo tem sido avaliada mais recentemente. A avaliação de enzimas no solo (arilsulfatase e betaglucosidase) tem sido amplamente utilizada para aferir a qualidade do solo do ponto de vista biológico. Nesse ensaio, a avaliação dessas enzimas (Figura 4) indicaram maiores níveis de arilsulfatase nos sistemas mais diversificados. Por outro lado, quando se observa a betaglucosidase, o sistema 6 (alfafa-milho) foi superior aos demais. De modo geral, a concentração de betaglucosidase se relaciona diretamente com a dinâmica de C e N no solo.
Uma das informações mais importantes desse estudo é o estoque de carbono (C) no solo. A importância desse dado é pelo fato de que a dinâmica de C no solo reflete praticamente todos os parâmetros de qualidade do solo. Carbono está intensamente relacionado a aspectos físicos, químicos e biológicos do solo. Em geral, houve grande diferença no estoque de C do solo. Os sistemas alfafa-milho (6) e ervilhaca-milho-aveia-soja-trigo-soja (2) apresentaram maiores valores de C no solo. Isso está relacionado à grande atividade biológica que é observada nesses sistemas, tanto pela maior diversificação (sistema 2) ou pelo grande aporte de N e crescimento radicular constante (sistema 6).
Portanto, considerando a qualidade do solo, os sistemas que apresentaram melhores resultados foram o sistema 2 (ervilhaca-milho-aveia-soja-trigo-soja) e o sistema 6 (alfafa-milho).
Rentabilidade – Sustentabilidade econômica do sistema
Um dos grandes objetivos desse projeto sempre foi avaliar a rentabilidade em longo prazo. Esse tipo de projeto fornece informações muito importantes para avaliação do resultado financeiro ao considerar uma perspectiva de longo prazo, sob influência portanto de diversos fatores políticos, econômicos climáticos. Os resultados financeiros nos mostraram que há diferenças importantes dependendo do recorte histórico. Esses resultados isolaram apenas os sistemas exclusivos para produção de grãos. De modo geral, foi observado que, principalmente no período em que não houve grandes diferenças na produtividade de soja em função do sistema, o sistema 1 (trigo-soja) foi o mais interessante do ponto de vista econômico, entre 2004 e 2018. Esse período se destacou também pelo mercado de soja normalmente muito mais favorável que outras culturas, como milho e trigo. Importante observar, no entanto, que nos últimos 4 anos, que foi um período de alta rentabilidade para todas as culturas, o sistema 4 (aveia-milho-trigo-soja) foi o mais rentável.
O resultado econômico mostra claramente a importância de ter mais colheitas por ano, que é o que ocorre no sistema trigo-soja. Este sistema tem 2 colheitas visando rentabilidade por ano, ao passo que os demais sistemas têm valores menores deste indicador. Importante ressaltar que foi essa uma das principais preocupações dos pesquisadores em 1989: Como garantir menor dependência da safra de verão para ter mais rentabilidade de forma sustentável.
Considerações Finais
Ao observar os dados de rentabilidade acumulada do ensaio, é possível chegar a uma conclusão simples e fácil: O sistema trigo-soja foi o que gerou maior rentabilidade e, portanto, é o sistema mais adequado. Também é possível chegar a outra conclusão simples e fácil: Como o solo é o maior patrimônio do produtor, e o sistema que garantiu melhor qualidade do solo foi o sistema alfafa-milho, então esse é o melhor sistema. Ou, considerando apenas produção de grãos, poderia indicar o sistema ervilhaca-milho-aveia-soja-trigo-soja. O fato é que essas conclusões não estão corretas.
Com esse ensaio, foi possível aprender alguns conceitos importantes que precisam nortear qualquer sistema de produção, principalmente para produção de grãos em SPD. A importância de ter raízes vivas no sistema a maior parte do tempo é um exemplo. O sistema alfafa-milho, embora inviável em larga escala, mostra claramente os benefícios para o solo ao ter uma leguminosa que permanece viva no solo desenvolvendo raízes e aportando N. Outro exemplo é a diversificação de espécies, garantindo que resíduos culturais de uma cultura sejam decompostos antes de essa cultura retornar. Isso garante estabilidade na produção, algo que não foi observado no sistema soja-trigo em alguns períodos. Outro conceito importante, como comentado acima, é a necessidade de ter em média pelo menos 2 colheitas/ano para ter bons resultados financeiros.
Portanto, não é possível definir de maneira fácil ou simples qual o melhor sistema. Afinal, estamos falando de muitas variáveis, em um sistema complexo que é influenciado por muitos fatores. A decisão da sequência de culturas deve ser tomada com base primeiramente no ambiente. Conhecer o tipo de solo, a aptidão, o clima, o histórico, o cenário político-econômico e as oportunidades da região são questões fundamentais que precisam ser consideradas.
A intensificação sustentável dos sistemas tem se mostrado como o caminho mais promissor para aliar rentabilidade com qualidade do solo. É importante destacar que atualmente há tecnologias que não existiam em 1989 e que possibilitam trabalhar com 2 culturas no verão, por exemplo. É importante que ao intensificar o sistema, a qualidade do solo seja sempre monitorada e esforços são necessários para garantir a sustentabilidade do sistema. Minimizar ao máximo o período de pousio é um dos pontos cruciais para o sucesso nesse modelo. Ao olhar os sistemas 2, 3 e 4, por exemplo, é possível pensar em alternativas para aumentar a quantidade de colheitas por ano, potencialmente melhorando a rentabilidade do sistema.
O sucesso financeiro de uma propriedade sempre será altamente dependente da qualidade do solo. Mas se o produtor não tiver rentabilidade, dificilmente ele terá condições de investir na qualidade do solo. Portanto, o fundamental é que a propriedade tenha um sistema que permita entrar em um ciclo virtuoso, onde alta rentabilidade em médio e longo prazo permita investimentos que favoreçam a qualidade do solo. Com mais qualidade do solo, é natural esperar maiores níveis de produtividade, alavancando ainda mais a rentabilidade. Alguns caminhos para chegar a esse patamar são os principais aprendizados desse ensaio, que sem dúvida nenhuma ainda terá muito a nos ensinar.